segunda-feira, 6 de março de 2017

A RELAÇÃO DA FILOSOFIA E A ESCOLA

Por: Romário Milhomem da Cruz

Como fugir da filosofia? Como se educar sem a filosofia? Na tentativa de responder essas questões, todo pensador acaba por perceber que a humanidade culmina num universo de questões acerca do que Jaspers (1971) definiu como; “questões fundamentais da vida”, na qual outras ciências especificas não apresentam a argumentação para nortear um caminho. Aqui, a filosofia apresenta-se como o caminho que a escola deve percorrer na tentativa de solucionar essas questões fundamentais da vida.
Uma questão interessante a se debater, é que, se o sujeito é o resultado do meio e de sua educação, deve se afirmar que a filosofia pode proporcionar o surgimento de indivíduos com uma ampla capacidade de interação com o mundo e seus desafios, pois, a escola, através da filosofia, desenvolve uma demanda de alunos dotados de uma consciência crítica, capaz de formar opinião e avaliar seu ambiente. A grande dificuldade está no fato de que, há docentes e administradores ligada a educação básica que, visualizam uma filosofia que é incompatível com o nível de educação proporcionada aos alunos. Conforme Rodrigues (2017), dentre inúmeros argumentos que “sustentam” essa propalada “incompatibilidade”, no mínimo dois são interessantes: o do “despreparo” e o da “inaptidão” dos estudantes desse período da educação formal.
Para apontar a relação da filosofia com a escola, é que busca-se apresentar argumentos que discutem questões como a cidadania, justiça e ética, entre outras, que estão presentes na escola que propõe a emancipação humana dos sujeitos, e a compreensão da construção histórica da sociedade brasileira.
Verifica-se que, a filosofia não estabeleceu-se na educação como uma prioridade dos gestores públicos, às vezes tratada como um certo requinte, sendo até considerado uma matéria que só era acessível a uma classe mais elitizada, porém, às vezes muito maltratada no processo de ensino/aprendizagem, sendo instrumento ou alvo de exclusão no universo escolar.
A filosofia sofreu diversas idas e vindas no currículo escolar, nem sempre sendo privilegiada, às vezes fragmentada por área, outras vezes até sendo inserida nos planejamentos e nas diretrizes, porém, nunca efetivada na prática, sendo que há casos que chegou ao status de disciplina obrigatória no ensino secundário. A filosofia também sofreu quando se instalou uma escola tecnicista, por não se enquadrar nos objetivos governamentais ou dessa concepção educacional, sendo substituída por disciplinas como Educação Moral e Cívica (RODRIGUES, 2017).
Nas últimas décadas, se observa que a escola vem realizando diversos ensaios para a inclusão da filosofia no ensino básico, tendo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, lei 9.394/96, como um marco de retorno, prevendo a sua obrigatoriedade ao lado da Sociologia, contribuindo para o desafio da construção sociocultural de sujeitos conscientes e atuantes em seu meio.
Conforme a observação de Rodrigues (2017);

No que se refere à Filosofia, é como tragédia que a história tem se repetido. Enquanto uns acreditam que a Filosofia na educação básica não tem a mínima afinidade com os estudantes brasileiros, outros entendem que os próprios estudantes nada fazem por merecê-la. O que se diz é o seguinte: “Os estudantes da educação básica brasileira não muito fracos e não estão preparados para a Filosofia”.

Apesar dessa afirmação insensata, é importante que nesse ponto se estabeleça uma reflexão; como pode-se definir o que é estar preparado para mergulhar no mundo da filosofia? Seria possível considerar somente um sujeito que teve condições favoráveis e frequências em instituições educacionais de qualidade, como aquele capaz/preparado para uma educação filosófica?
Uma forte tendência capitalista é refletida pelo sistema educacional vigente na sociedade, onde encontra-se uma educação privilegiada a camadas mais elitizadas – ferindo o que está previsto na legislação brasileira e na Declaração Universal dos Direitos Humanos: uma educação de qualidade para todos – na qual, sujeitos advindos das classes mais desfavorecidas, são tarjados de “despreparados” para uma educação crítica e filosófica.
Trilhar um caminho a uma escola cidadã, é ter consciência de que, o saber filosófico é o que proporciona aos alunos de educação básica, a capacidade de promover a sua emancipação sociocultural, reduzindo as fragilidades de uma escola repleta de desigualdades e desencontros com uma educação ideal. Não tem como se mensurar a importância da filosofia para o currículo escolar e para o sucesso do processo de ensino/aprendizagem, o que acaba por suprir uma carência cultural e a redução de preconceitos. Se a escola não se dedicar a educar os que não sabem, a quem ela se dedicará, Afirma Rodrigues (2017).
Identifica-se uma urgência no despertar dos alunos a criatividade e a criticidade, que fomenta uma concepção madura do mundo, sociedade e da vida, transformando a filosofia em um instrumento essencial para que a escola alcance o âmago da sua razão de existir.
Ao tentar compreender as questões aqui abordadas, deve-se colocar como elemento influenciador do ambiente escolar, aspectos como o contexto e as condições sociais do país e da localidade onde a escola está inserida. A conjuntura e a formação econômica do Brasil, são fatores condicionantes para o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem, sendo a filosofia um canal que propõem em seu discurso novas possibilidades com abordagens acerca do exercício da cidadania entre outros temas atuais, sendo que deve se destacar o saber filosófico como um saber onde nenhum preconceito consegue se abrigar, edificando o currículo escolar e o currículo de cidadania.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


JASPERS, K. Introdução ao pensamento filosófico. São Paulo: Cultrix, 1971.



RODRIGUES, Lana Julia. "Filosofia, Educação Básica e Cidadania ". Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/educacao/filosofia-educacao-basica-cidadania.htm>. Acesso em 06 de marco de 2017.

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