Por: Romário Milhomem da Cruz
Como fugir da filosofia? Como se educar sem a
filosofia? Na tentativa de responder essas questões, todo pensador acaba por
perceber que a humanidade culmina num universo de questões acerca do que
Jaspers (1971) definiu como; “questões fundamentais da vida”, na qual outras
ciências especificas não apresentam a argumentação para nortear um caminho.
Aqui, a filosofia apresenta-se como o caminho que a escola deve percorrer na
tentativa de solucionar essas questões fundamentais da vida.
Uma questão interessante a se debater, é que, se o
sujeito é o resultado do meio e de sua educação, deve se afirmar que a
filosofia pode proporcionar o surgimento de indivíduos com uma ampla capacidade
de interação com o mundo e seus desafios, pois, a escola, através da filosofia,
desenvolve uma demanda de alunos dotados de uma consciência crítica, capaz de
formar opinião e avaliar seu ambiente. A grande dificuldade está no fato de
que, há docentes e administradores ligada a educação básica que, visualizam uma
filosofia que é incompatível com o nível de educação proporcionada aos alunos.
Conforme Rodrigues (2017), dentre inúmeros argumentos que
“sustentam” essa propalada “incompatibilidade”, no mínimo dois são interessantes:
o do “despreparo” e o da “inaptidão” dos estudantes desse período da educação
formal.
Para apontar a relação da filosofia com
a escola, é que busca-se apresentar argumentos que discutem questões como a
cidadania, justiça e ética, entre outras, que estão presentes na escola que
propõe a emancipação humana dos sujeitos, e a compreensão da construção
histórica da sociedade brasileira.
Verifica-se que, a filosofia não
estabeleceu-se na educação como uma prioridade dos gestores públicos, às vezes
tratada como um certo requinte, sendo até considerado uma matéria que só era
acessível a uma classe mais elitizada, porém, às vezes muito maltratada no
processo de ensino/aprendizagem, sendo instrumento ou alvo de exclusão no
universo escolar.
A filosofia sofreu diversas idas e
vindas no currículo escolar, nem sempre sendo privilegiada, às vezes
fragmentada por área, outras vezes até sendo inserida nos planejamentos e nas
diretrizes, porém, nunca efetivada na prática, sendo que há casos que chegou ao
status de disciplina obrigatória no ensino secundário. A filosofia também
sofreu quando se instalou uma escola tecnicista, por não se enquadrar nos
objetivos governamentais ou dessa concepção educacional, sendo substituída por
disciplinas como Educação Moral e Cívica (RODRIGUES, 2017).
Nas últimas décadas, se observa que a
escola vem realizando diversos ensaios para a inclusão da filosofia no ensino
básico, tendo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, lei 9.394/96,
como um marco de retorno, prevendo a sua obrigatoriedade ao lado da Sociologia,
contribuindo para o desafio da construção sociocultural de sujeitos conscientes
e atuantes em seu meio.
Conforme a observação de Rodrigues
(2017);
No que se refere à Filosofia,
é como tragédia que a história tem se repetido. Enquanto uns acreditam que a
Filosofia na educação básica não tem a mínima afinidade com os estudantes
brasileiros, outros entendem que os próprios estudantes nada fazem por
merecê-la. O que se diz é o seguinte: “Os estudantes da educação básica
brasileira não muito fracos e não estão preparados para a Filosofia”.
Apesar
dessa afirmação insensata, é importante que nesse ponto se estabeleça uma
reflexão; como pode-se definir o que é estar preparado para mergulhar no mundo
da filosofia? Seria possível considerar somente um sujeito que teve condições
favoráveis e frequências em instituições educacionais de qualidade, como aquele
capaz/preparado para uma educação filosófica?
Uma
forte tendência capitalista é refletida pelo sistema educacional vigente na
sociedade, onde encontra-se uma educação privilegiada a camadas mais elitizadas
– ferindo o que está previsto na legislação brasileira e na Declaração
Universal dos Direitos Humanos: uma educação de qualidade para todos – na qual,
sujeitos advindos das classes mais desfavorecidas, são tarjados de
“despreparados” para uma educação crítica e filosófica.
Trilhar
um caminho a uma escola cidadã, é ter consciência de que, o saber filosófico é
o que proporciona aos alunos de educação básica, a capacidade de promover a sua
emancipação sociocultural, reduzindo as fragilidades de uma escola repleta de
desigualdades e desencontros com uma educação ideal. Não tem como se mensurar a
importância da filosofia para o currículo escolar e para o sucesso do processo
de ensino/aprendizagem, o que acaba por suprir uma carência cultural e a redução
de preconceitos. Se a escola não se dedicar a educar os que não sabem, a quem
ela se dedicará, Afirma Rodrigues (2017).
Identifica-se
uma urgência no despertar dos alunos a criatividade e a criticidade, que
fomenta uma concepção madura do mundo, sociedade e da vida, transformando a
filosofia em um instrumento essencial para que a escola alcance o âmago da sua
razão de existir.
Ao
tentar compreender as questões aqui abordadas, deve-se colocar como elemento
influenciador do ambiente escolar, aspectos como o contexto e as condições
sociais do país e da localidade onde a escola está inserida. A conjuntura e a
formação econômica do Brasil, são fatores condicionantes para o desenvolvimento
do processo de ensino e aprendizagem, sendo a filosofia um canal que propõem em
seu discurso novas possibilidades com abordagens acerca do exercício da
cidadania entre outros temas atuais, sendo que deve se destacar o saber
filosófico como um saber onde nenhum preconceito consegue se abrigar,
edificando o currículo escolar e o currículo de cidadania.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
JASPERS,
K. Introdução ao
pensamento filosófico. São Paulo: Cultrix, 1971.
RODRIGUES, Lana Julia. "Filosofia, Educação Básica e
Cidadania ". Brasil
Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/educacao/filosofia-educacao-basica-cidadania.htm>.
Acesso em 06 de marco de 2017.
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