segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Uma reflexão sobre a construção do pensamento do período medieval utilizando o conhecimento filosófico e teológico

Por: Romário Milhomem da Cruz

Realizando uma reflexão sobre o pensamento medieval, pode-se alcançar uma distinção sobre o conhecimento filosófico e teológico, e encontrar pontos de partidas diferentes para cada um. A filosofia desde os pensadores gregos, caminha pela luz da razão e de informações e questionamentos originados do intelecto sensitivo. “Questionar é o atributo de um filosofo, porque não há outro início para a filosofia além desse (PLATÃO, apud KIM, 2011, p. 12)”.
            De outro lado surge à teologia junto com o cristianismo, que sem abandonar os instrumentos do conhecimento filosófico, recorre a Bíblia ou a princípios cristãos adquiridos pela revelação divina para construir o seu conhecimento. Segundo Santo Agostinho;

“Os humanos são seres racionais. Para que sejam racionais os humanos devem ter livre-arbítrio. Isso significa que devem ser capazes de escolher entre o bem e o mal. Os humanos podem, portanto, agir bem ou mal. Deus não é a origem do mal”. (apud KIM, 2011, p. 72).

            No desenvolvimento do pensamento medieval observam-se vários autores justificando ou condenando o conhecimento da filosofia, gerando inúmeros debates acerca de assuntos como fé e razão e a existência de Deus. Santo Agostinho, um dos mais influentes pensadores do período, em sua tese seguiu o pensamento de Platão que caminhou em busca do contato com o mundo inteligível.

“Mas depois de ler aqueles livros dos platônicos e de ser induzido por eles a buscar a verdade incorpórea, vi que ‘as vossas perfeições invisíveis se percebem por meio das coisas criadas’. Sendo repelido (no meu esforço), senti o que, pelas trevas da minha alma, me não era permitido contemplar: experimentei a certeza de que existíeis e éreis infinitos, sem, contudo vos estenderdes pelos espaços finitos e infinitos”. (AGOSTINHO, 1999, P. 194).

            Esse trecho do livro confissões usa a filosofia para justificar a teologia cristã da época, onde o autor sai do pensamento platônico para os ensinamentos das sagradas escrituras.
Sem dúvida uma das questões que mais esteve presentes nos debates filosóficos e teológicos da época, desenvolveu-se acerca da alma. Orígenes foi um pensador que explicou que a alma é parte do ser humano mais retorna a Deus após a morte, assim seguindo a linha do pensamento platônico, Orígenes estava convencido da imortalidade das almas, mesmo que o corpo humano estava na condição de mortal.
            Segundo Orígenes (apud ALEXANDER, 2014, p. 210), “A alma, tendo substância e vida própria, ao deixar o mundo será recompensada de acordo com seus feitos”. Então, a relação de Deus com os homens não se extinguem com a morte do corpo, ela continua com uma parte humana, a alma. Avicena se afasta da visão aristotélica de unidade e passa para a explicação dualista de que a o corpo e a alma são substâncias distintas.

“Se eu ficasse de olhos vendados e suspensos no ar, tocando em nada, não saberia que tenho um corpo. Mas saberia que eu – meu ‘eu’ ou ‘alma’ – existo. Então, minha alma não é um corpo, mas algo diferente. A alma é distinta do corpo.” (KIM, 2011, p. 77).

Pode-se buscar no pensamento de Tomás de Aquino afirma que o universo pode ter sempre existido, mais os seres pode ter passado a existir a partir de um ponto. “Deus poderia ter criado o universo sem humanos e, depois, cria-los (AQUINO, apud KIM, 2011, p. 92)”. Influenciado por Aristóteles, Tomas de Aquino busca conciliar a afirmação aristotélica de que o universo sempre existiu, mais a bíblia em contradição diz que o universo nem sempre existiu. Nisso Tomas de Aquino explica que o mundo teve um inicio “mas Deus pode tê-lo criado de forma a ter existindo eternamente”. (KIM, 2011, p. 91).

Observa-se que a fé utilizou-se constantemente da filosofia como um instrumento para justificar ou refutar doutrinas emergentes durante a construção do pensamento medieval e dos princípios e dogmas cristãos.


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AGOSTINHO, Santo. Confissões. 1. Ed. São Paulo: Editora Nova Cultura Ltda, 1999. 416p.


ALEXANDER, Bruno. O livro das religiões. 1. Ed. São Paulo: Globo Livros, 2014. 352p.


KIM, Douglas. O livro da Filosofia. 1. Ed. São Paulo: Globo, 2011. 352p.

CARACTERIZAÇÃO DA FILOSOFIA MEDIEVAL

Por: Romário Milhomem da Cruz

          A uma serie de particularidades encontradas no desenvolvimento do pensamento filosófico medieval, distanciando a perspectiva de que esse era um período de trevas. A presença de valores cristões e outras características da época trás consigo uma singularidade histórica do conhecimento. A igreja exercia um monopólio do conhecimento intelectual, reafirmando sua definição cultural teocêntrica.
           Não é de ser surpreender que os principais filósofos eminentes nesse período, tinham como centro de suas discursões temas relacionados com a formação e o entendimento das doutrinas cristãs. Observa-se que no Séc. III, Tertuliano, um dos primeiros polemistas da igreja latina sustentava a afirmação que o conhecimento não tem validade sem que o mesmo esteja ligado aos valores cristãos. “Ao contrário de outros escritores que viam na doutrina cristã uma semelhança e uma continuação da filosofia grega, Tertuliano sustenta a total contraposição entre elas.” (PELELLA, 2010) 
         Nessa linha de pensamento, surgem outros pensadores que defendiam verdades dogmáticas acerca do pensamento cristão que desvincula qualquer posição da razão. Em oposição a esse pensamento, outros atores medievais não compartilhavam dessa posição negativa sobre a relação de fé e razão. 
            Buscando justificativas racionais a fé, Santo Agostinho se torna um expressivo representante da conciliação do conhecimento com a fé. Ao buscar na fonte do pensamento platônico, Agostinho apresenta as obras “Confissões” e “Cidade de Deus”, apontando uma ação Divina onipresente, tirando a autonomia do homem em conquistar sua salvação espiritual. 
               A fé conseguiu ter predominância por um longo período no pensamento filosófica medieval, através da ideia de subordinação do homem a Deus, legitimando interesses do poder religioso da época, consequentemente patrocinando os tumultos, guerras e ações negativas do mundo medieval. 
          Porém, a modificações vivenciadas na Baixa Idade Média patrocinou uma reavaliação do pensamento teológico de Santo Agostinho. Nesse cenário surge a conhecida filosofia escolástica que objetivava a promoção de uma harmonia entre a fé e a razão. São Tomás de Aquino é um dos mais expressivos representantes do pensamento escolástico, além de promover uma teologia que dialoga com variados objetos do pensamento aristotélico. São Tomaz de Aquino criou um pensamento que fosse reduzido em nenhum tipo de questionamento, trazendo também uma figura mais otimista do homem, acreditando que nem ativo na formação de conhecimento. Apesar desse pensamento acerca do homem, o pensamento escolástico defendia a importância central da Igreja na orientação de valores que o homem deve trilhar para a salvação, combatendo fortemente às heresias e preservando o papel primordial da igreja.

REFERENCIAS 

PELELLA, Giovanni. História da filosofia medieval. – São Luís: UemaNet, 2010.


SOUSA, Rainer Gonçalves. "Filosofia Medieval"; Brasil Escola. Disponível em <http://www.brasilescola.com/historiag/filosofia-medieval.htm>. Acesso em 18 de novembro de 2015.

domingo, 7 de agosto de 2016

CARACTERÍSTICAS DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO

Por: Romário Milhomem da Cruz

Conhecimento científico é um conhecimento real porque lida com ocorrências ou fatos, constitui um conhecimento contingente, pois suas preposições ou hipóteses têm a sua veracidade ou falsidade comprovada através da experimentação e não apenas pela razão, como ocorre no conhecimento filosófico.
Nesse ângulo, faz-se oportuno pontuar os fatores fundamentais do conhecimento científico: a racionalidade, a objetividade e a factualidade.  O primeiro por sua vez busca atingir uma sistematização coerente do conhecimento presente em todas as suas leis e teorias. Logo, a ciência, no momento em que sistematiza as diferentes teorias, procura uni-las estabelecendo relações entre um e outro enunciado, entre uma e outra lei, entre uma e outra teoria, entre um e outro campo da ciência, de forma tal que se possa, através dessa visão global, perceber as possíveis inconsistências e corrigi-las. O racionalismo defende que a verdade já está em nós, nascemos com as ideias.
Já o fator Objetividade tem a pretensão de que as teorias científicas, tornem-se modelos teóricos representativos da realidade, sejam construções conceituais as quais representam com fidelidade o mundo real, que contenham imagens dessa realidade, cujas sejam "verdadeiras", evidentes, impessoais, passíveis de serem submetidas a testes experimentais e aceitas pela comunidade científica como provadas em sua veracidade. Em outras palavras, é a procura de adaptação aos fatos ao invés de especulações em controle.
Em outra margem, para se chegar a Factualidade, é necessário um estudo sobre as ciências factuais também chamadas de experimentais ou empíricas por tratarem de objetos abstratos e que dependem de testar suas hipóteses experimentalmente, estão inseridos os demais campos do conhecimento. Divide ainda as ciências factuais em naturais e sociais (culturais ou humanas), nas quais serão incluídas entre outras, a economia, a psicologia e a sociologia. Dessa forma, Edmund Husserl deu esse nome ao modo de ser do fato, enquanto essencialmente casual, ou seja, enquanto pode ser diferente do que é.

Portanto, Conhecimento científico necessita de uma teoria para tornar-se legítimo, de hipóteses para serem testadas e de um método para conduzir a INVESTIGAÇÃO. Cujo faz uso das seguintes características: Real ou factual, contingente, sistemático, falível, aproximadamente exato, verificável, racional e objetivo.

VERDADE ENQUANTO CONCEITO E VERDADE ENQUANTO DEFINIÇÃO

Por: Romário Milhomem da Cruz

Seguindo a meditação de Martin Heidegger: “A essência da verdade torna-se liberdade, o deixar-ser do ente que dispõe o ser-ai como ente em sua totalidade penetra e “precede” todo o motivo de comportamento para a não verdade estabelecida”.
Em uma primeira análise, a coisidade da coisa é o resultado do valer da verdade, que encontra-se determinada verdade, verifica-se se realmente o que deveria ser e finalmente encontramos o resultado, que obviamente chamamos de “verdade”. O caminho feito é interessante mais vela-se por demais na essencialização das coisas e dos objetos.
Nesse sentido, aquilo que apresenta-se como verdade, não pode ser aceita como absoluta. Uma vez que, a verdade como definição, é o mesmo que dizer ou enumerar todas as características de uma determinada realidade, ou seja, é definir uma totalidade.
Em contrapartida, a verdade como conceito, significa dizer alguma verdade de uma realidade específica, por isso é parcial, ou seja, conhecimento através do processo de síntese.
 Uma das características marcantes do ser humano é a busca permanente pela verdade, é o desejo de comprovar a veracidade dos fatos e de distinguir o verdadeiro do falso. Cuja busca pela verdade surge logo na infância e ao longo da vida, estamos sempre nos questionando sobre as verdades estabelecidas pela sociedade, por isso a filosofia tem na investigação da verdade o seu maior valor.
               Portanto, vale ressaltar que a problemática da verdade é o caráter de uma transcedentalidade que é pratica, ou seja, que é ligada ao modo de ser no mundo. Em outras palavras, a verdade espelha aquilo que é, o problema é encontrar a essência do que as coisas são, adquirir a certeza incontestável sobre algo, o que geraria uma atitude dogmática. Logo, chegar à verdade pode ser mais complexo do que aparente, talvez mesmo impossível dentro da limitada capacidade humana de racionalização.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O QUE É DIALÉTICA?

Por: Romário Milhomem da Cruz

O que é dialética? Muitos responderiam que é a arte do dialogo, a arte de debater, de persuadir ou do raciocínio. Só que para alcançar o sentido intimo da dialética se faz necessário compreender seus aspectos técnicos e históricos, fazendo um breve levantamento da sua evolução, sua totalidade, criticidade e radicalidade, e como se dá o processo de reflexão a partir da arte dialética.
A dialética obteve seu inicio na Grécia antiga, mais passou a ser aplicada como a arte de demostrar tese e argumentos em um diálogo, com a capacidade de conceituar e de reconhecer todos os conceitos envolvidos no debate. Com o entendimento moderno, a dialética ganhou um novo significado, ela passou a refletir sobre contradições encontradas na realidade humana, mudando a maneira em que o homem analisa a sua realidade essencialmente contraditória e em constantes transformações.
Acompanhando o aspecto histórico da evolução da filosofia, pode-se obter um vasto conjunto de pensadores que deram sua contribuição a arte da dialética. Em sua tese, o filosofo Héraclito diz que tudo o que existe está em constante mudança, e que o conflito é o pai e o rei de todas as coisas. O que Héraclito mostra em sua teoria é que a natureza tem uma essência de constante mutação, é isso se faz necessário para a mesma siga o seu curso, gerando o conflito que rege todas as coisas.
Os contemporâneos desse filósofo não via essa linha de pensamento com bons olhos, devida eles estar mais aberto a uma realidade que nega esse movimento de constante modificação, é onde outro filosofo chamado Parmênides, defensor do pensamento chamado metafísica, ensina que a essência mais profunda era a do ser imutável, e afirmava que o movimento era um fenômeno de superfície. Com essa visão a dialética passou a ser reprimida, devido o seu principio se encontrar na reflexão sobre as contradições, apresentado argumentos que leve a modificação ou persuasão para mudança das coisas.
É importante observar que nesse ponto a concepção dialética foi sufocada para uma posição secundaria, e até mesmo condenada a uma pratica limitada, reduzindo a sua influência na edificação da reflexão e do entendimento. As sociedades feudais vivenciaram por séculos grandes derrotas impostas por conceitos estabelecidos por regimes da Idade Média, o que enfraqueceu essa arte a ponto de em cada passo ocorrer à expulsão da dialética da filosofia. A dialética foi sufocada, e para sobreviver ela teve que assegurar à filosofia um espaço próprio, saindo do domínio da domínio da Teologia.
Aberlado (1079-1142) obteve êxito ao discutir longamente sobre as relações entre camadas universais e os fatos notáveis em termo da lógica pura, demostrando na prática, que continha problemas de grande importância a qual a sua abordagem não necessitaria da aproximação teológica. 
            Observando o Séc. XVI, vimos surgir o movimento renascentista e as grandes descobertas marítimas com os novos continentes, ressurgindo também as artes e as ciências, mostrando que o universo era bem mais complexo e grandioso do que o que se era pregado na ideologia medieval, e expôs a realidade do homem ser potencialmente muito mais livre do que se imaginava. A dialética encontrou no renascimento a saída de seu estado de opressão, a qual fora obrigada a permanecer por vários séculos, trocando o seu claustro pela liberdade.
A Revolução Francesa trouxe consigo condições para o amadurecimento do processo histórico, permitindo aos filósofos uma compreensão mais sólida sobre a dinâmica das mudanças e transformações sociais. Foi durante o pensamento iluminista que a historia acompanhou bem de perto a reivindicações do povo, articulando com a burocracia, promovendo manifestações políticas promovendo as condições para uma rápida mudança dos costumes, ocorrendo o desaparecimento dos vestígios do mundo feudal dando espaço a um mundo novo mais racional.
A Revolução Francesa foi capa de envolver diversas pessoas, as grandes massas populares e os homens comuns do povo sentiram a necessidade de refletir sobre questões políticas que no passa era assunto restrito somente à minoria da elite, e nesse período a política passou a fazer parte do cotidiano de quase todo mundo. A filosofia também recebeu reflexos dessa situação, a Europa e toda a sua história estava sendo revelada em um nu de suas contradições. Hegel em seu pensamento, não faz somente uma reflexão aprofundada sobre a Revolução Francesa, mais apresenta um pensamento radical sobre a Revolução Industrial que vinha surgindo na Inglaterra.
Hegel em sua observação, perceber a importância do trabalho para impulsionar o desenvolvimento humano, pois é constatado que é no trabalho que o homem constrói a si mesmo, pois o trabalho se desenvolve como o núcleo que traz a compreensão das formas complicadas da atividade criadora do sujeito humano.  Através do trabalho o homem conseguiu separa-se um pouco mais da natureza, contrapondo-se como um agente sujeito ao mundo os objetos naturais. O homem tem a capacidade de prever em sua cabeça os resultados de suas ações, sendo capaz também de escolher os caminhos a ser trilhado até seus objetivos, e com o trabalho o homem conseguiu adquirir mais autonomia em relação à natureza, pois se tornou capaz de dominar a mesma. Para Hegel a dialética é a superação e ao mesmo passo a negação de uma determinada realidade, a conservação de algo de essencial que existe nessa realidade negada e a elevação dela a um nível superior.
A seguir surge outro filosofo importante na abordagem do trabalho para a evolução da dialética, Karl Marx. Marx concordou plenamente com a observação de Hegel de que o trabalho era a mola que impulsionava o desenvolvimento humano, porém criticou a unilateral idade da concepção hegeliana do trabalho, sustentando que Hegel dava importância demais ao trabalho intelectual e não enxergava a significação do trabalho físico, material.
Segundo a observação de Marx "o único trabalho que Hegel conhece e reconhece é o trabalho abstrato do espírito”. Essa concepção abstrata do trabalho levava Hegel a fixar sua atenção exclusivamente na criatividade do trabalho, ignorando o lado negativo dele, as deformações a que ele era submetido em sua realização material, social. Por isso Hegel não foi capaz de analisar seriamente os problemas ligados à alienação do trabalho nas sociedades divididas em classes sociais.
Segundo Marx o trabalho é a atividade pela qual o homem domina as forças naturais, humaniza a natureza; é a atividade pela qual o homem se cria a si mesmo. A partir da divisão social do trabalho, a humanidade passava a ter uma dificuldade bem maior para pensar os seus próprios problemas e para encará-los de um ângulo mais amplamente 'universal: mesmo quando eram sinceros, os indivíduos se deixavam influenciar pelo ponto de vista dos exploradores do trabalho alheio, pela "perspectiva parcial inevitável" das classes sociais.
Aqui se observa que Marx contesta no sentido de que Hegel só conhece e reconhece o trabalho abstrato do espírito – trabalho intelectual – enquanto que não considerava a significação do trabalho físico, material. Marx, por sua vez, caminha sob o percurso das seguintes preocupações filosóficas: 1) Em se constituindo o trabalho do humano na atividade e condição natural para alcançar sua realização como tal, como o trabalho chegou à condição de tornar-se o algoz do homem? 2) Como o trabalho chegou a ser transformado em uma atividade que é sofrimento? Em uma força que é impotência? Em uma procriação que é castração? Daí, percorre na conduta de que a divisão social do trabalho, o surgimento das classes sociais e a apropriação privada dos meios de produção por uma classe de homens exploradores em detrimento de outra classe de homens explorados, indicam a causa original dessas contradições da vida referente ao trabalho humano, em contextos típicos do sistema do capitalismo, em cuja correlação de forças os resultados do trabalho pertencem a um ente que não é o trabalhador que o construiu com sua força de trabalho convertida em mercadoria.
Dessa correlação de forças “explorador versus explorado”, o humano não alcança realizar-se, libertar-se, reconhecer-se em sua criação, mas, do contrário, é alienado, ameaçado e oprimido. Para tanto, o pensamento marxista indica como solução para tal deformação, o reconhecimento da luta de classes socioeconômicas postas, a tomada de consciência sobre a natureza e finalidade dessas relações e a promoção da revolução socialista organizada pelos trabalhadores.
Neste contexto teórico, a dialética concebe o mundo natural, bem como a criação do gênero humano, como sendo sistemas e cadeias de sistemas contínuos, dinâmicos, contraditórios e inacabados, onde qualquer elemento concreto ou subjetivo é sempre parte de um todo sistêmico, de tal modo que, para intervir resolutamente sobre um problema, o sujeito humano e histórico precisa lançar sua percepção consciente sobre a síntese (que não é soma) da estrutura significativa do conjunto dos problemas que inter-relacionam-se, nutrem-se ou se negam, virtuosa ou viciosamente, sem olvidar que essas totalidades são, sempre, mais amplas do que o conhecimento que detemos sobre elas, além de que sua condição não é a da estática, da imobilidade, mas da transformação dinâmica e complexa.
De modo plural, encontramos totalidades com níveis de abrangências diferentes, por exemplo: um indivíduo; um grupo social; um Estado; um país; um continente; o mundo capitalista; uma teoria; a humanidade etc, cujo critério nos exige um reconhecimento teórico dos limites de nossa observação e da experienciação social consciente em relação às totalizações e em relação aos acontecimentos que demarcam suas sínteses estruturantes, tanto no que tange às suas dimensões imediatas como às dimensões mediatas e, ainda, às suas contradições internas e externas. Por conseguinte, ressalte-se que Marx, ao contrário da dialética de Hegel, reconhece a dimensão concreta da natureza humana e não reconhece a manifestação de nenhum aspecto da realidade humana situada acima da história ou fora desta. Este caráter materialista da dialética de Marx é reforçado em Engels, que chegou a sintetizar três leis essenciais à história humana e à natureza, quais são: 1) a Lei da passagem da quantidade à qualidade (e vice-versa) das coisas e das totalidades; 2) a Lei da interpenetração dos contrários, que tudo tem a ver com tudo; tudo está entrelaçado; e 3) a Lei da negação da negação.

Na dialética marxista, o ser humano é concebido como sujeito efetivo capaz de tomar a iniciativa de mobilizar a construção da história, processo no qual a prática requer um constante reexame da teoria e a teoria se presta para criticar e autocriticar a prática, em profundidade. Resulta disso que a mudança se dá em processo dialeticamente inevitável, cujo palco dessas operações é o ambiente das tensões criativas das sociedades humanas. Após essa construção do marxismo, várias décadas se seguiram de produções antagônicas e análogas, por teóricos de matizes diversos, até os dias atuais. Como a própria dialética sugere, trata-se de um processo que se nutre dessas mesmas contradições da vida.

O QUE É ESCLARECIMENTO?

Por: Romário Milhomem da Cruz

Ao acompanhar o pensamento do autor, percebe-se que a ideia de esclarecimento é como uma saída que o homem percorre para se afastar de sua minoridade, e que essa minoridade é provocada por ele mesmo, pois ela é a causa da incapacidade do individuo de ofertar um entendimento a sua própria compreensão, sem se valer de outro sujeito. Essa minoridade é culpa do próprio sujeito, pois é dele que resulta a falta de coragem necessária para obter o proveito de seu entendimento sem que necessite da tutela de outro individuo. A fronteira do esclarecimento está justamente na coragem do sujeito de ministrar o seu próprio entendimento.
A comodidade facilita a preguiça e a covardia afasta o entendimento e a consciência do sujeito, pois o mesmo não precisa se esforçar já que outro o faz por ele. É muito difícil para o homem se desapegar dessa tutela, já que o processo para o esclarecimento pode parecer penoso, e a natureza do homem é cômoda. Rejeitar os preceitos e fórmulas em favor do pensamento racional é o mesmo que efetuar um salto duvidoso por cima do curso normal das coisas, pois não é um hábito deter essa tal liberdade e esclarecimento. São poucos os que alcançaram essa liberdade através do constante exercício do seu próprio espírito.
A existência de alguns indivíduos que conquistaram o esclarecimento e passaram a refletir por si mesmo, em sua maioria geralmente são os próprios tutores dessa minoridade, pois estes se tornaram capazes de rejeitar o julgamento da minoridade, e espalham um espirito de apreciação racional do valor individual de cada homem que pensa por si próprio. Ainda que esse esclarecimento não exija nada além do que a liberdade, em todo lugar é comum ocorrer limitações da mesma por menor que seja.

Apesar da sociedade contemporânea não desfrutar de forma clara acerca do entendimento humano, pode-se acreditar que este é um período de esclarecimento, pois pouco a pouco o homem vem se encontrando num campo aberto ao conhecimento, onde pode cada vez mais se mover com liberdade para ultrapassar os obstáculos do referido entendimento com segurança e êxito.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O PENSAMENTO PRÉ-SOCRÁTICO SOBRE ALMA

Por: Romário Milhomem da Cruz

Ao se buscar o estudo nas origens do pensamento pré-socrático de uma ideia do que seja a Alma, sob a perspectiva do desenvolvimento dos conceitos de alma, imortalidade e sobrevivência da alma sobre a morte, desenrolam-se informações sobre conceitos desenvolvidos desde a civilização minoica até o período pré-socrático. Foi na Grécia que os construtores da Verdade obterão o papel de questionar sobre a natureza e outras questões humanas. Mais porque estudar a alma na Grécia sobre o pensamento dos primeiros filósofos? Inicialmente pode até parecer uma curiosidade ingênua, instigada por dúvidas suscitadas na cadeira de História da Filosofia Antiga em nosso curso.
            A literatura leva pensar em alma imortalidade e noções de sobrevivência à morte e condições de vida após esta, o objetivo é a concretização do ser enquanto sujeito da história, sendo um elemento em processo de imortalização da consciência coletiva de seus contemporâneos. Poesias da Grécia Antiga, como as narrações de Homero, contextualizou relações entre os mortos e os vivos sendo consumado para o senso comum da época. Dado continuidade a observação, nota-se uma simplificação audaz que leva a dizer que toda a problematização da vida e pensamento filosófico – religioso dos gregos, gira em torno de um núcleo chamado alma.
            Mais o que é Alma? A ideia de alma na Grécia antiga é oriunda de tradições místicas e religiosas, chamada de psyché, que continha vários significados (“sopro de vida, alento, alma, vida, ser vivo, pessoa, coisa amada, alma humana, entendimento, conhecimento, prudência, sentimento, coração, valor, caráter, desejo, inclinação, gosto e apetite”). Segundo a tradição da época, tanto os homens como as almas tinham certas necessidades mútuas, conforme a concepção da época e, dessa forma, o culto dos mortos, o fogo sagrado e a religião doméstica eram as vias de expressão de tais necessidades.
            Com o pensamento dos construtores da filosofia inicia-se um pensamento da alma como construtora do indivíduo. Por sujeito alma, passou-se a entender como o “eu”, a pessoa que é conhecida por suas práticas e atividades psicológicas que lhe garantem uma dimensão interior que o constitui como ser real, original, único, indivíduo singular e que, em sua natureza, reside todo o segredo de sua vida interior, de sua intimidade, a qual ninguém, com exceção dele próprio, tem acesso, é a consciência de si.
            Até o momento a alma era, por assim dizer, um composto de forças exteriores à consciência de si, determinada pela ideia, ou melhor, dizendo, pela forma de ver que os demais no grupo demonstravam através de suas atitudes. Daí em diante a alma é algo novo, começando a vislumbrar a presença de si mesma em interação com o meio e as demais pessoas que o compõem, que nada mais são que modos de pensar oriundos de si mesmo no processo de subjetivação da objetividade e o consequente desdobramento deste sobre aquela, de maneira a viabilizar o conhecimento mais ou menos consciente de si.
Mais o qual é o pensamento dos pré-socráticos sobre alma?
Parmênides nasceu em Eléia, viveu entre o século VI. é um inovador radical da filosofia da Physis, com ele a cosmologia recebe um profundo abalo do ponto de vista conceitual, transforma-se em uma Ontologia. Assim como outros pensadores pré-socráticos, Parmênides enfrentou uma questão central: a busca de um princípio, ou arché, subjacente a todas as coisas, e a determinação de um traço de união entre esse princípio e a realidade do mundo físico, em constante mutação. Para Parmênides, tudo o que existe constitui uma única realidade: o ser, que ele identifica com o pensamento, uma vez que só se pode pensar sobre aquilo que existe.
Segundo Parmênides os opostos se devem pensar como incluídos na unidade superior do ser: ambos os opostos são “ser”. Parte assim para a dupla de opostos: “luz” e “noite”. Está claro que assim como o não - ser estava eliminado, também estava eliminada a morte, que é uma forma de não-ser. Para Parmênides a obscura “noite” em que o cadáver se encontra não é o não - ser, isto é, o nada; por isso o cadáver permanece no ser e , de alguma forma, continua a sentir e, portanto, a viver.
Olhando para a escola aristotélica temos a seguinte afirmação; a matéria não possui nenhum movimento intrínseco. No entanto, encontramos na natureza seres animados, os quais possuem em si mesmos um princípio de movimento. Esse princípio é a alma. Ela é forma que organiza os seres animados. Aristóteles a define como “a alma é aquela coisa devido à qual vivemos, sentimos e pensamos”. Segundo a teoria formulada na obra Acerca da Alma, enquanto que em alguns seres a alma possui apenas uma função ligada à manutenção da vida, em outros, ela apresenta funções mais complexas. Fundamentalmente, a alma pode apresentar três funções distintas, que leva Aristóteles a falar de três partes da alma, ou mesmo de três almas: primeiro, a alma vegetativa: é o princípio que regula as atividades biológicas. Está presente em todos os seres vivos, plantas e animais, e inclusive no homem. É responsável pelos instintos, pelos impulsos, crescimento, nutrição e reprodução; segundo, a alma sensitiva ou desiderativa: está presente somente nos animais, é responsável pelas sensações, pela percepção das peculiaridades dos objetos com os quais os animais entram em contato. Essa alma ainda coordena os movimentos corporais; terceiro, e a alma intelectiva ou pensante: que é uma exclusividade do ser humano. Ela é a capacidade de pensar discursivamente, de elaborar teorias e de pensar em explicações. É dela que deriva a capacidade de formular juízos sobre a realidade. 

FEDRO – PLATÃO

Por: Romário Milhomem da Cruz

O tema discutido em O Banquete, o amor, é continuado no discurso dado em Fedro. No início do dialogo encontra-se um cenário onde Sócrates se encontra pelo caminho com Fedro, onde Fedro retornava da casa de Lísias, um mestre da arte da retórica e da redigia para os dois lados dentro dos tribunais. No diaogo com Sócrates Fedro comentava sobre a boa impressão de um discurso emitido por Lísias em sua casa, e sobre o que significou em sua mente. A curiosidade de Sócrates o leva a pedir que Fedro o reproduza para que ele possa analisá-lo.
Nesse discurso de Lísias, é examinado o amor entre homens, algo comum naquele período da Grécia clássica. Esse mestre acreditava que a paixão entre dois amantes é prejudicial, pois nunca se satisfaz, estando sujeita a várias aflições, como os medos provocados pela separação e o favorecimento depois da separação ao novo amado, em prejuízo do antigo amante. Lísias acreditavam que o homem apaixonado não consegue conservar os negócios e nem manter o seu juízo normal e a sua razão. Através do diálogo entre os amantes, pode-se até saber já mantem, ou não, atividades sexuais. Aquele homem que vive pelo o amor não somente de outras pessoas como também pelo dinheiro e pelo saber (conhecimento), experimenta uma angustia constante pela existência de outras pessoas para transpor os obstáculos em termos financeiros e de conhecimentos.
Lísias acreditava que é melhor se abter da paixão, e viver sem esse sentimento, e dar preferência ao sentimento da amizade, pois o mesmo diz que, “liberto do amor, sou capaz de me dominar”, então esse mestre inicia um conjunto de recomendações sobre as vantagens adquiridas através da amizade, sentimento que não espera o amor em troca, ao contrário do que se vive com a paixão. Alimentar os que têm fome, poder conquistar amigos que o acompanharão não somente durante a juventude, mas também até a velhice, são esses dentre outros os conselhos dado pelo o orador.
Ao ouvir tudo o que Fedro reproduz do orador, ele ironiza dizendo ao mesmo que adorou o discurso. Então Fedro pede a Sócrates para que ele também faça um dos seus famosos discursos para que se possa comparar ao discurso proferido por Lísias. Aceitando o desafio, Sócrates explica que o que Lísias explicou não se trata do amor verdadeiro, que tem como virtude a temperança, o que ele expôs se trata da paixão, um tipo de amor que é submetido pela intemperança. A paixão é reprimida pela busca do prazer, já o amor é a busca do que é melhor. Sócrates explica que o homem apaixonado é aquele que deseja que o seu amado seja inferior a ele, pois o a paixão move a pessoa a não suportar a ideia da existência de um homem que lhe seja superior.
O que é mais grave segundo Sócrates, é que o homem apaixonado acaba por fazer o pior ato em relação ao amado, que é afastá-lo da filosofia. Sócrates interrompe o seu discurso no qual Fedro fica decepcionado por esse ter sido tão curto. Sócrates é possuído nesse momento por um daimonion, o qual faz o filósofo grego se arrepender pelo seu discurso anterior. A partir desse momento, Sócrates pretende fazer um elogio a Eros e apresentar sua definição da natureza da alma e o seu destino. Sócrates define a alma como imortal porque tudo aquilo que move a si mesmo e não é movido por outro é imortal.
Sócrates diz para Fedro que o discurso que fez quando estava sob a influência do daimonion corrigiu o primeiro, quando ele concordou com o caráter negativo do amor da mesma forma que Lísias. O Sócrates do segundo discurso fala sobre o amor divino e aos bens espirituais, que são aqueles que ele crê que os homens devam buscar; o primeiro discurso reflete sua certeza de que o amor ao prazer carnal e às opiniões desse mundo é nocivo.  Fedro é um livro muito belo e poético, que define de maneira breve algumas das concepções da psicologia de Platão. Platão acredita que o verdadeiro amante da sabedoria e amigo dos deuses é aquele que relembra o que viu no mundo das Ideias, quando contemplou a verdade e a justiça. Quando está nesse mundo, esse homem que vive a vida de filósofo e que pensa e ensina tudo aquilo que um dia viu e aprendeu, tem a obrigação de ensinar aos que ainda estão presos na caverna e só observam as sombras na caverna a respeito das verdades eternas, para que possa libertar àqueles que ainda vivem a vida da Doxa e do amor intemperante, fazendo dessa forma que o verdadeiro amor possa ser dirigido às questões do espírito, liberando o homem da prisão da carne.
No diálogo em Fedro, o orador condena o ofício dos poetas que têm por missão cantar hinos aos deuses, mas se esquecem de Eros. Fedro, no seu discurso, faz a justificação moral de Eros, mas não investiga a fundo sua essência e suas formas. De qualquer forma, é devido à fala desse discípulo de Sócrates que toda a discussão se inicia. Com o intuito de elevar Eros, Fedro encerra seu discurso dizendo que esse é o deus mais antigo, mais respeitável e o mais autorizado a levar o homem à posse das virtudes e da felicidade, nesta vida e depois da morte! Em resumo, Fedro proclama o amor como a divindade mais antiga e mais honrada entre os deuses. Ele concebe também o amor como um sumo bem e como um propósito final. Por fim, Fedro assevera que Eros é o deus mais poderoso na aquisição da virtude e na promoção da felicidade.