Por: Romário Milhomem da Cruz
O que é dialética? Muitos
responderiam que é a arte do dialogo, a arte de debater, de persuadir ou do
raciocínio. Só que para alcançar o sentido intimo da dialética se faz
necessário compreender seus aspectos técnicos e históricos, fazendo um breve
levantamento da sua evolução, sua totalidade, criticidade e radicalidade, e como se dá o processo de
reflexão a partir da arte dialética.
A dialética obteve seu inicio na
Grécia antiga, mais passou a ser aplicada como a arte de demostrar tese e
argumentos em um diálogo, com a capacidade de conceituar e de reconhecer todos
os conceitos envolvidos no debate. Com o entendimento moderno, a dialética ganhou
um novo significado, ela passou a refletir sobre contradições encontradas na
realidade humana, mudando a maneira em que o homem analisa a sua realidade
essencialmente contraditória e em constantes transformações.
Acompanhando o aspecto histórico
da evolução da filosofia, pode-se obter um vasto conjunto de pensadores que
deram sua contribuição a arte da dialética. Em sua tese, o filosofo Héraclito
diz que tudo o que existe está em constante mudança, e que o conflito é o pai e
o rei de todas as coisas. O que Héraclito mostra em sua teoria é que a natureza
tem uma essência de constante mutação, é isso se faz necessário para a mesma
siga o seu curso, gerando o conflito que rege todas as coisas.
Os contemporâneos desse filósofo
não via essa linha de pensamento com bons olhos, devida eles estar mais aberto
a uma realidade que nega esse movimento de constante modificação, é onde outro
filosofo chamado Parmênides, defensor do pensamento chamado metafísica, ensina
que a essência mais profunda era a do ser imutável, e afirmava que o movimento
era um fenômeno de superfície. Com essa visão a dialética passou a ser
reprimida, devido o seu principio se encontrar na reflexão sobre as
contradições, apresentado argumentos que leve a modificação ou persuasão para
mudança das coisas.
É importante observar que nesse
ponto a concepção dialética foi sufocada para uma posição secundaria, e até
mesmo condenada a uma pratica limitada, reduzindo a sua influência na
edificação da reflexão e do entendimento. As sociedades feudais vivenciaram por
séculos grandes derrotas impostas por conceitos estabelecidos por regimes da
Idade Média, o que enfraqueceu essa arte a ponto de em cada passo ocorrer à
expulsão da dialética da filosofia. A dialética foi sufocada, e para sobreviver
ela teve que assegurar à filosofia um espaço próprio, saindo do domínio da
domínio da Teologia.
Aberlado (1079-1142) obteve êxito
ao discutir longamente sobre as relações entre camadas universais e os fatos
notáveis em termo da lógica pura, demostrando na prática, que continha
problemas de grande importância a qual a sua abordagem não necessitaria da
aproximação teológica.
Observando
o Séc. XVI, vimos surgir o movimento renascentista e as grandes descobertas
marítimas com os novos continentes, ressurgindo também as artes e as ciências,
mostrando que o universo era bem mais complexo e grandioso do que o que se era
pregado na ideologia medieval, e expôs a realidade do homem ser potencialmente
muito mais livre do que se imaginava. A dialética encontrou no renascimento a
saída de seu estado de opressão, a qual fora obrigada a permanecer por vários
séculos, trocando o seu claustro pela liberdade.
A Revolução Francesa trouxe
consigo condições para o amadurecimento do processo histórico, permitindo aos
filósofos uma compreensão mais sólida sobre a dinâmica das mudanças e
transformações sociais. Foi durante o pensamento iluminista que a historia
acompanhou bem de perto a reivindicações do povo, articulando com a burocracia,
promovendo manifestações políticas promovendo as condições para uma rápida
mudança dos costumes, ocorrendo o desaparecimento dos vestígios do mundo feudal
dando espaço a um mundo novo mais racional.
A Revolução Francesa foi capa de
envolver diversas pessoas, as grandes massas populares e os homens comuns do
povo sentiram a necessidade de refletir sobre questões políticas que no passa
era assunto restrito somente à minoria da elite, e nesse período a política
passou a fazer parte do cotidiano de quase todo mundo. A filosofia também
recebeu reflexos dessa situação, a Europa e toda a sua história estava sendo
revelada em um nu de suas contradições. Hegel em seu pensamento, não faz
somente uma reflexão aprofundada sobre a Revolução Francesa, mais apresenta um
pensamento radical sobre a Revolução Industrial que vinha surgindo na
Inglaterra.
Hegel em sua observação, perceber
a importância do trabalho para impulsionar o desenvolvimento humano, pois é
constatado que é no trabalho que o homem constrói a si mesmo, pois o trabalho
se desenvolve como o núcleo que traz a compreensão das formas complicadas da
atividade criadora do sujeito humano.
Através do trabalho o homem conseguiu separa-se um pouco mais da
natureza, contrapondo-se como um agente sujeito ao mundo os objetos naturais. O
homem tem a capacidade de prever em sua cabeça os resultados de suas ações,
sendo capaz também de escolher os caminhos a ser trilhado até seus objetivos, e
com o trabalho o homem conseguiu adquirir mais autonomia em relação à natureza,
pois se tornou capaz de dominar a mesma. Para Hegel a dialética é a superação e
ao mesmo passo a negação de uma determinada realidade, a conservação de algo de
essencial que existe nessa realidade negada e a elevação dela a um nível
superior.
A seguir surge outro filosofo
importante na abordagem do trabalho para a evolução da dialética, Karl Marx.
Marx concordou plenamente com a observação de Hegel de que o trabalho era a
mola que impulsionava o desenvolvimento humano, porém criticou a unilateral
idade da concepção hegeliana do trabalho, sustentando que Hegel dava
importância demais ao trabalho intelectual e não enxergava a significação do
trabalho físico, material.
Segundo a observação de Marx
"o único trabalho que Hegel conhece e reconhece é o trabalho abstrato do
espírito”. Essa concepção abstrata do trabalho levava Hegel a fixar sua atenção
exclusivamente na criatividade do trabalho, ignorando o lado negativo dele, as
deformações a que ele era submetido em sua realização material, social. Por
isso Hegel não foi capaz de analisar seriamente os problemas ligados à
alienação do trabalho nas sociedades divididas em classes sociais.
Segundo Marx o trabalho é a
atividade pela qual o homem domina as forças naturais, humaniza a natureza; é a
atividade pela qual o homem se cria a si mesmo. A partir da divisão social do
trabalho, a humanidade passava a ter uma dificuldade bem maior para pensar os
seus próprios problemas e para encará-los de um ângulo mais amplamente
'universal: mesmo quando eram sinceros, os indivíduos se deixavam influenciar
pelo ponto de vista dos exploradores do trabalho alheio, pela "perspectiva
parcial inevitável" das classes sociais.
Aqui se observa que Marx contesta no
sentido de que Hegel só conhece e reconhece o trabalho abstrato do espírito –
trabalho intelectual – enquanto que não considerava a significação do trabalho
físico, material. Marx, por sua vez, caminha sob o percurso das seguintes
preocupações filosóficas: 1) Em se constituindo o trabalho do humano na
atividade e condição natural para alcançar sua realização como tal, como o trabalho
chegou à condição de tornar-se o algoz do homem? 2) Como o trabalho chegou a
ser transformado em uma atividade que é sofrimento? Em uma força que é
impotência? Em uma procriação que é castração? Daí, percorre na conduta de que
a divisão social do trabalho, o surgimento das classes sociais e a apropriação
privada dos meios de produção por uma classe de homens exploradores em
detrimento de outra classe de homens explorados, indicam a causa original
dessas contradições da vida referente ao trabalho humano, em contextos típicos
do sistema do capitalismo, em cuja correlação de forças os resultados do
trabalho pertencem a um ente que não é o trabalhador que o construiu com sua
força de trabalho convertida em mercadoria.
Dessa correlação de forças “explorador versus
explorado”, o humano não alcança realizar-se, libertar-se, reconhecer-se em sua
criação, mas, do contrário, é alienado, ameaçado e oprimido. Para tanto, o
pensamento marxista indica como solução para tal deformação, o reconhecimento
da luta de classes socioeconômicas postas, a tomada de consciência sobre a
natureza e finalidade dessas relações e a promoção da revolução socialista
organizada pelos trabalhadores.
Neste contexto teórico, a dialética
concebe o mundo natural, bem como a criação do gênero humano, como sendo
sistemas e cadeias de sistemas contínuos, dinâmicos, contraditórios e
inacabados, onde qualquer elemento concreto ou subjetivo é sempre parte de um
todo sistêmico, de tal modo que, para intervir resolutamente sobre um problema,
o sujeito humano e histórico precisa lançar sua percepção consciente sobre a
síntese (que não é soma) da estrutura significativa do conjunto dos problemas
que inter-relacionam-se, nutrem-se ou se negam, virtuosa ou viciosamente, sem
olvidar que essas totalidades são, sempre, mais amplas do que o conhecimento
que detemos sobre elas, além de que sua condição não é a da estática, da
imobilidade, mas da transformação dinâmica e complexa.
De modo plural, encontramos totalidades
com níveis de abrangências diferentes, por exemplo: um indivíduo; um grupo
social; um Estado; um país; um continente; o mundo capitalista; uma teoria; a
humanidade etc, cujo critério nos exige um reconhecimento teórico dos limites
de nossa observação e da experienciação social consciente em relação às
totalizações e em relação aos acontecimentos que demarcam suas sínteses
estruturantes, tanto no que tange às suas dimensões imediatas como às dimensões
mediatas e, ainda, às suas contradições internas e externas. Por conseguinte,
ressalte-se que Marx, ao contrário da dialética de Hegel, reconhece a dimensão
concreta da natureza humana e não reconhece a manifestação de nenhum aspecto da
realidade humana situada acima da história ou fora desta. Este caráter
materialista da dialética de Marx é reforçado em Engels, que chegou a
sintetizar três leis essenciais à história humana e à natureza, quais são: 1) a
Lei da passagem da quantidade à qualidade (e vice-versa) das coisas e das
totalidades; 2) a Lei da interpenetração dos contrários, que tudo tem a ver com
tudo; tudo está entrelaçado; e 3) a Lei da negação da negação.
Na dialética marxista, o ser humano é
concebido como sujeito efetivo capaz de tomar a iniciativa de mobilizar a
construção da história, processo no qual a prática requer um constante reexame
da teoria e a teoria se presta para criticar e autocriticar a prática, em
profundidade. Resulta disso que a mudança se dá em processo dialeticamente
inevitável, cujo palco dessas operações é o ambiente das tensões criativas das
sociedades humanas. Após essa construção do marxismo, várias décadas se
seguiram de produções antagônicas e análogas, por teóricos de matizes diversos,
até os dias atuais. Como a própria dialética sugere, trata-se de um processo
que se nutre dessas mesmas contradições da vida.