*Romário Milhomem da Cruz
Refletindo
a história da filosofia política, observa-se que a ideologia de estado da
Grécia Antiga está mais próxima do que a da modernidade. Os pensadores gregos,
visualizaram as construções políticas sob dois caminhos, o coletivo e o
individual, o universo metafísico foi colocado a favor do social, a sociedade
se torna autossuficiente se a sua política e seus membros forem orientados por
leis e normas.
Nesse
ponto, pode-se fazer uma ponte ao pensamento de Rousseau (1712-1778), que no
seu livro o contrato social, que trata o estado ideal como uma reposta óbvia:
encontrar uma forma de associação que defenda e proteja a pessoa e os bens de
cada associado com toda a força comum, e pela qual cada um, unindo-se a todos,
só obedece a si mesmo, permanecendo assim tão livre quanto antes (apud HARWOOD,
2013, p. 85). Aqui, coloca-se que, a questão do outro deve estar ligada a do
“eu”, que a política de estado deve surgir de princípios que sirva a todos.
Como contraponto, Maquiavel pregou a
política como o amor ao poder (ROCHAMONTE, 2015), fomentando o rompimento de
padrões morais e éticos dentro universo político, prova disso encontra-se na
sua afirmação: um senhor não pode nem deve guardar sua palavra quando isso é
prejudicial a ele e quando as razões de ele ter dito o que disse não existem
mais (MAQUIAVEL, 2011, p. 140), ou seja, o idealismo de estado iniciado pelo
Gregos, que Rousseau creditou a um contrato social de princípios coletivos, em
Maquiavel ganha um aspecto individualista, onde os ideais nobres são golpeados
pelo desejo de poder de quem está à frente do estado.
Analisar a política ao longo da
história é poder entender como o princípio de legitimidade se desenvolveu.
Legitimidade em ciência política, é traduzido no próprio significado da
palavra, é um instrumento que mensura os modelos de poder, perante a obediência
e do consenso social.
Maquiavel descreve a legitimidade
através de uma ótica prática, o modelo político assumido pelo individuo em
sociedade. Em seu livro “O Príncipe”, o filosofo observa diversos fatos
concretos para justificar sua teoria sobre o poder, onde o político pode adotar
uma duplicidade de ações em seu favor e para garantir a sua legitimidade: os
homens amam como querem e temem de acordo com o desejo do príncipe; um príncipe
sábio deve se apoiar naquilo que pode controlar, e não nos outros (MAQUIAVEL,
2011, p. 135).
Rousseau, ver a legitimidade ligada
a duas forças políticas; a vontade e ação. Para o mesmo, a soberania é
indivisível (apud MONTEIRO, s/d, p. 08), e que só existe um poder legítimo – o
legislativo, pois o mesmo é o que representa a vontade geral e definiria as
leis fundamentais da sociedade, os demais seriam apenas atos administrativos.
Carl Schmitt, apresenta o conceito
de legitimidade de uma maneira singular, a qual elabora uma crítica ao
liberalismo político, e reconhece que um dos erros fundamentais está na
afirmação de que a lei seria a única justificação racional para exercer o poder
(apud MONTEIRO, s/d, p. 09).
Maquiavel colocou a ação política em
primeiro plano como uma área de ação autônoma levando a um rompimento com a
moral social (RIBEIRO, 2017), ou seja, é dado ao governante uma autonomia
política de pode adotar qualquer postura para que sua vontade seja alcançada,
porém o mesmo deve se desviar de algumas atitudes e olhar algumas como
virtudes, desde que isso venha a mantê-lo no poder.
Um príncipe não deve, portanto,
importar-se por ser considerado cruel se isso for necessário para manter os
seus súditos unidos e com fé. Com raras exceções, um príncipe tido como cruel é
mais piedoso do que os que por muita clemência deixam acontecer desordens que
podem resultar em assassinatos e rapinagem, porque essas consequências
prejudicam todo um povo, ao passo que as execuções que provêm desse príncipe
ofendem apenas alguns indivíduos” (MAQUIAVEL, 2011).
Já em Marx, se defende que o poder
deve se emanar do povo, que os governantes não podem deter uma autonomia e nem
uma postura que oprime, que explora ou que manipula, pois o trabalho do povo é
que sustenta o estado político, assim, acerca da autonomia do poder político, Marx e Engels (apud TONET, 2016, p. 22), afirma as
ideias das classes dominantes, podem ser questionadas e democratizadas a todas
as outras classes e instituições da sociedade.
Então,
verificado a linguagem utilizada por Maquiavel em “O Príncipe”, observamos uma
teoria política fundada na prática e na experiência concreta, utilizando os
resultados esperados como justificativa para atitudes ardilosas, astutas ou
perfídias, como podem ser conferidas na seguinte frase: Parecer piedoso, fiel,
humano, religioso, integro, mas com a mente preparada, de modo que precisando
não ser essas coisas possas e saiba ser o contrário (MAQUIAVEL,
2011, p. 141).
Harwood (2013, p. 63), observou que
Maquiavel utiliza em sua linguagem um modelo, que apesar de o seu governante
ideal precisar estar pronto para enganar, torturar e assassinar, se a situação
o exigisse, tal governante, deveria parecer um modelo de virtude. John Stuart
Mill (2014, p.17), na obra Utilitarismo, apresenta uma política com outra
linguagem, onde o mesmo afirma que: Devemos
perseguir a felicidade – não só a própria felicidade, mas a felicidade de todos
aqueles cujo bem-estar poderá ser afetado pela nossa conduta.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
HARWOOD,
Jeremy. Filosofia: um guia com as ideias
de 100 grandes pensadores. Tradução de Henrique Monteiro. São Paulo:
Planeta, 2013.
MILL, John Stuart. Utilitarismo.
Tradução Ricardo Marcelino Palo Rodrigues. São Paulo: HunterBooks, 2014.
MAQUIAVEL,
Nicolau. O Príncipe. Tradução de
Dominique Makins a partir da edição inglesa de W. K. Marriott. São Paulo:
HunterBooks, 2011.
MONTEIRO, Hugo. Legitimidade no Pensamento Político de
Maquiavel, Rousseau e Carl Schmitt: Breves considerações. Universidade de
Evora, s/d.
RIBEIRO, Paulo Silvino. Maquiavel
e a autonomia da política. Brasil
Escola. Disponível em
<http://brasilescola.uol.com.br/sociologia/ciencia-politica-maquiavel.htm>.
Acesso em 15 de janeiro de 2017.
ROCHAMONTE,
Catarina. Idealismo e realismo político
ou a Grécia clássica contra Maquiavel. Rio de Janeiro: Instituto Libera,
2015. Disponível em:
<https://www.institutoliberal.org.br/blog/idealismo-e-realismo-politico-ou-a-grecia-classica-contra-maquiavel/>,
Acessado em: 15 de janeiro de 2017.
TONET, Ivo. Marxismo,
religiosidade e emancipação humana. 1ª
ed. Maceió: Coletivo Veredas, 2016.
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