Romário Milhomem da Cruz
Falar em pobreza na sociedade brasileira
sempre foi uma questão delicada, principalmente porque que a mídia, os
políticos e o grandes empresários se incomodam com esse assunto, e porque quem advém
das classes média e baixa desconhecem realmente o estado de miserabilidade em
que se encontra uma parte expressiva da sociedade, acabam assim só por repetir
um discurso estabelecido pelos poucos que detém a parcela maior do bolo
econômico e político.
As palavras de Sposati (apud NOGUEIRA
in BOSCHI, 1991: p.108):
A pobreza se expressa não só pela
impossibilidade de suprir as condições mínimas de sobrevivência, mas também
pela frustração de expectativas pela falta de acesso a certos privilégios que o
modelo de produção de bens especiais [bens de luxo], geravam na população.
A
proposta do curso, traz atrelado aos seus objetivos uma importante
característica, o trabalho com os educadores em aprenderem a refletir e
intervir de maneira estratégica na parte de sua comunidade que encontra-se
entre os desfavorecidas pelo sistema. Mais para isso, se faz necessário que os
mesmos tomem como ponto de partida uma nova atitude, onde possam reconhecer de
fato que a pobreza existe, e que assumam a tarefa de trazer também esse
clareamento para a sociedade.
Veja, então, que reconhecer a pobreza e as desigualdades,
fundamentalmente, significa levar em conta que há uma existência persistente
dos pobres nas escolas brasileiras, trazendo reflexões importantes para as
práticas pedagógicas e para a gestão educacional (ARROYO, 2014). Então,
reconhecer a existência dessa realidade de crianças e adolescentes afetados
pela da pobreza dentro da educação, não é a única atitude esperada, necessita
também colocar em evidência um discurso de como se dar essa vivência da pobreza.
Muitos
colocam a pobreza como uma questão de escolhas e moralidade, esses culpam o
pobre por ser pobre, como se essa realidade fosse
escolhida por eles. Quando se imputa aos(às) pobres a sua condição de pobreza e
considera-se que são carentes de valores, passa-se a entrever apenas uma
solução: educá-los(as) nos valores do trabalho, da dedicação e da perseverança,
desde a infância (ARROYO, 2014). Mais será que a principal função da escola perante essas pessoas
marginalizadas, é fornecer uma moralidade de valores? uma espécie de “antídoto”
contra a pobreza? Será realmente que milhões de país querem ver seus filhos
passando fome só por comodismo? Será que muitos estão sem tento só por preguiça
de trabalhar?
Piva (2005, p. 14) diz que:
Carentes de recursos econômicos, os
pobres também estão desprovidos de consciência política e dos direitos que
constituem a cidadania. Serviços de saúde, educação, moradia e saneamento de
qualidade não são relacionados por eles como produto dos impostos e tarifas
pagas ao governo nas ações cotidianas, mas muitas vezes, vistos como favores
empreendidos por políticos em troca de votos.
Ocorre muito a presença de um
pensamento reducionista sobre o pobre e as desigualdades presentes na
sociedade, mais há uma negligência da formação econômica e social brasileira.
Desde de seu descobrimento, o Brasil está marcado por injustiças, por privação
de direitos básicos da humanidade e a dignidade de classes desfavorecidas ou
que não atende-se aos padrões dos opressores e dominadores da sociedade.
Essa característica deixou como
herança um pensamento crítico por partes dos favorecidos pela economia e pela política, em relação a
programas e projetos que visam atender o excluídos e marginalizados, rotulam de assistencialistas as políticas de transferência de
renda, como o Bolsa Família (ARROYO,
2014). Muitos buscam desestimular a transferência de renda e a disponibilidade
de oportunidades as parcelas mais “fracas” da sociedade, porque os que já tem
muito bolo estão querendo sempre mais e mais.
Grandes
são os desafios que serão encontrados nessa jornada, mais recompensador será os
resultados que hão de ser alcançados quando a educação conseguir fazer com que
a sociedade em toda a sua plenitude reflita e procure intervir de maneira
efetiva no combate à pobreza, e no reducionismo das desigualdades sociais
presentes em nosso país desde do início de sua formação cultural, política e
social.
REFERÊNCIAS
Arroyo, Miguel. Pobreza, Desigualdades e Educação. Módulo Introdutório na
Pós-Graduação em Educação Pobreza e Desigualdade Social. Brasil, 2014.
BOSCHI,
R. R. CORPORATIVISMO E DESIGUALDADE – a
constituição do espaço público no Brasil (Org.). Rio de Janeiro: Rio Fundo
Editora, 1991.
PIVA,
Isabel Maria da Penha. Sob o estigma da
pobreza: a ação da irmandade da misericórdia no atendimento à pobreza em
Vitória - ES (1850-1889). Centro de Ciências Humanas e Naturais da
Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Vitória, 2005. [Dissertação de
Mestrado].
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