sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Matrix: uma moderna caverna de Platão


                                          * Prof. MsC. Romário Milhomem da Cruz
Ao estabelecer contato com a longa metragem ‘Matrix’, observamos que esta produção cinematográfica apresenta-se como uma versão moderna do famoso mito platônico da Alegoria da Caverna. Um pouco mais de dois milênios, e esta obra se mostra muito influenciada pelo pensamento platônico acerca da realidade e o conhecimento.
Em ambas as obras (o Mito da Caverna e o filme Matrix), se tem a possibilidade de encontrar as mesmas questões sobre as percepções de mundo geradas como sombras à nossa imaginação, e a realidade presente por traz delas. Morpheus, um dos personagens do filme, evidencia essa questão ao questionar: “como saberias a diferença entre o mundo dos sonhos e o mundo real?”.
Dentre as pistas da metáfora em torno do filme Matrix, podemos destacar a questão do indivíduo diferente, que tem uma nova forma de se relacionar com as percepções, esse é um novo sujeito, que rompe com as sombras do conhecimento e alcança à plenitude, esse sujeito é representado pelo personagem principal da trama, o Neo.
Podemos comparar esse personagem do filme com aquele indivíduo do mito que se encontrava na mesma caverna das demais pessoas, na qual podemos considerar no filme como a empresa, o apartamento, os moldes sociais, a cidade e tudo que o Neo possuía, como realidade construída. De repente perceber que o seu cotidiano não era real, e que haveria um mundo externo de sua caverna, por maior loucura que ele pudesse achar, era como se libertar de amarras, assim como o sujeito que se liberta da caverna e passa ver as reais figuras por detrás das sombras.
Percebemos que em ambas as representações do mesmo pensamento platônico, encontramos indivíduos que se encontram amarrados de sua tenra idade, em direção oposta à entrada da caverna, obrigados a contemplar sombras por toda a sua vida. Esta amarra, no filme se deu pela dormência de uma realidade implantada em sua mente, ao passo que na realidade os indivíduos não passam de meras baterias humanas em capsulas.
Essa representação da realidade mostra uma crítica à sociedade que passa sua existência contemplando apenas as sombras das representações de outros homens que projetam a sua realidade e o eco de suas vozes, mas são incapazes de buscar outra realidade social.
Esta analogia, presente desde o início do filme, apresenta-se quando os personagens ficam em conflito com o mundo real e o mundo simulado. O fato do seu mundo ‘ser’ uma programação realizada pela inteligência artificial de maquinas, como uma forma de manter estes em controle e permanecer fornecendo energia, dar-nos a ideia da mesma experiência vivenciada na Alegoria da Caverna.
Assim, Matrix e o Mito da Caverna contêm e sua essência, a ocultação da força original que desenvolve a realidade, deixando os sujeitos cegos para a verdade por detrás das sombras, tornando-o escravos das representações que lhes são fornecidas.
Percebe-se que nestes cenários, as aprendizagens obtidas pelos nossos sentidos nem sempre refletem a realidade. Platão pensou o mundo sensível como um mundo perecível, em constante transformação, irreal, apenas uma pequena projeção obtida a partir do mundo verdadeiro.
Ao se libertar das sombras, tanto Neo (matrix) como o sujeito que se liberta na Alegoria da Caverna, alcançam a cura de ignorância a respeito de sua existência e da verdade por detrás das sombras. E esse caminho de libertação gera um sentimento expresso por Neo, quando diz: “Alguma vez tiveste aquela sensação em que não tens a certeza se estás acordado ou a dormir?”
Assim, para encerrar esta análise, podemos concluir o pensamento platônico por meio do questionamento realizado por Morpheus (matrix): “O que é ‘real’? Como definirias ‘real’? Tens vivido num mundo de sonhos, Neo”. Platão viu que os sujeitos que conseguem fugir deste mundo das representações, ficaram ofuscados com a própria luz, mostrando que esse processo de iluminação dos pensamentos não é uma tarefa fácil, que requer um processo de adaptação, principalmente para os que se libertam da matrix pela primeira vez.

Referências:


PLATÃO. A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian. 1990, 6ª ed.


THE MATRIX, (Matrix). Direção e roteiro: Andy Wachowski e Larry Wachowski, produção Joel Silver, Distribuição: Warner Bros. EUA, 1999.

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